As 100 Sacras: Dia 62 - Capela dos Aflitos na Liberdade, São Paulo

O dia em que não fotografei uma igreja

O dia em que não fotografei uma igreja

As 100 Sacras: Dia 62 - Capela dos Aflitos na Liberdade, São Paulo
As 100 Sacras: Dia 62 – Capela dos Aflitos na Liberdade, São Paulo

Essa história começa a tomar forma um dia antes do fato acontecido. Era sexta-feira, véspera do dia que completaria 40 anos da tragédia do edifício Joelma, em São Paulo. Começo a ler alguns textos nos portais de notícias que contam o drama. Realmente, uma das grandes tragédias deste País e que marcou para sempre um edifício na capital paulista.

Uma das reportagens conta o lado assombrado daquele local, uma série de acontecimentos envoltos em mistérios. No meio do texto, havia um link para uma outra  matéria com o título “Conheça 14 lugares conhecidos como mal-assombrados em São Paulo”. Como gosto muito do assunto fui ler esse também. Ele descrevia lugares onde pessoas diziam ver fantasmas, ouvir gritos, ter sentimentos estranhos entre outras coisas espirituais.

Um dos locais descritos era a Capela da Santa Cruz dos Enforcados e, acho que aqui, começou realmente o fato que se sucederia no dia seguinte. Como algumas pessoas já sabem, eu fotografo igrejas, templos, cemitérios e locais ligados à vida, à crença e à morte. O tema me fascina e sempre rendem fotos espetaculares. A Capela da Santa Cruz dos Enforcados fica na Praça da Liberdade, local este que eu iria conhecer no dia seguinte, sábado, sem nunca ter estado lá antes. Por um descuido meu, não gravei essa informação na memória.

Esse foi o primeiro ponto do que costumo chamar de sorte na fotografia. Chegando lá, logo de cara vi a capela, mas ela não me chamou muito a atenção. Não me parecia assombrada e muito menos associei que era sobre ela que tinha lido no dia anterior. Para mim parecia apenas uma igrejinha bonitinha. A sorte começou a mudar quando em certo momento, andando pelas ruas do bairro, me deparo com outra capela, menor, escondida no final de um beco e, um tanto quanto assustadora.

Fomos almoçar e fiquei pensando se essa seria a capela ao qual li na matéria do dia anterior. Resolvi ir até lá. Fiz de imediato algumas fotos do exterior, do beco, do sino, da cruz, do portão. Parti então para conhecer (e fotografar) seu interior. A capela é simples, mas um tanto quanto sombria. Ao adentrar, vi altares básicos com várias imagens de santos e  três pessoas rezando. Preparei-me então para fotografar. Foi aí que tive a primeira sensação me dizia “não, agora não”. Fiquei encanado com aquilo, já que estou acostumado com igrejas.

Parei, baixei a câmera, observei bem em volta, nada parecia estranho. Observei então se não estava atrapalhando a oração de ninguém que ali estava, poderia ser essa a origem da sensação. Nada, as pessoas nem me viam. Parti então para uma segunda tentativa. Foi só preparar a câmera e novamente me veio a mesma coisa, esse não é o momento. Saí.

Ainda sem entender direito, resolvi fazer uma foto da sala das velas, que fica do lado de fora. Fiz algumas fotos e, em seguida, deixei o local e contei o ocorrido para as pessoas que me acompanhavam. Depois de alguns minutos de conversa decidi entrar mais uma vez e tentar novamente fotografar o interior da igreja. Já não tinha mais nenhuma pessoa lá rezando, então pensei, agora não vou atrapalhar ninguém. Quando encostei a câmera no rosto, e para meu espanto, mais um vez tive a sensação de “de não faça essa foto hoje”.

Como minhas crenças me orientam a ter respeito em lugares sacros, e uma igreja é um lugar sacro, eu decidi adiar a fotografia daquele lugar. Ainda encanado resolvi pesquisar sobre a igrejinha. Lá e a Capela dos Aflitos, uma capela erguida quando naquela região estava  o Cemitério dos Aflitos. Nele eram enterrados indigentes, presos, pobres, não católicos e os enforcados no enforcadouro que existia onde é hoje a Praça da Liberdade.

Conta a história que um soldado do exército chamado Francisco das Chagas (o Chaguinha) foi enforcado nessa praça. Sentenciado à morte depois de um levante contra seu comando que não pagava o soldo devido, nas duas primeiras tentativas (ou três, dependendo de quem conta), a corda arrebentou e ele não morreu. O povo que assistia, entendendo como um sinal divino, gritava por sua liberdade. Chaguinha então disse que se tivesse que morrer defendendo seus direitos que assim seria, tirou seu cinto de couro e o entregou ao carrasco dizendo que esse não arrebentaria. O carrasco então pendurou o cinto e consumou o castigo mortal.

Nesse exato momento da história que estou narrando é feita a ligação entre as duas capelas. A Capela da Santa Cruz dos Enforcados foi erguida em homenagem a Chaguinha e foi na Capela dos Aflitos que ele ficou preso até ser ser levado à forca. E sabe o que realmente impressionou? Pesquisando mais tarde, descobri que a sala das velas a qual fotografei foi a cela onde Chaguinha passou sua última noite. Por respeito a algo que eu não sei descrever, não fotografei o interior da capela dessa vez, mas eu ainda volto lá. Essa foi a única vez que eu não fotografei uma igreja.

As 100 Sacras: Dia 22 - Velário da Capela dos Aflitos na Liberdade, São Paulo
As 100 Sacras: Dia 22 – Velário da Capela dos Aflitos na Liberdade, São Paulo