O dia em que não fotografei uma igreja

O dia em que não fotografei uma igreja

Essa história começa a tomar forma um dia antes do fato acontecido. Era sexta-feira, véspera do dia que completaria 40 anos da tragédia do edifício Joelma, em São Paulo. Começo a ler alguns textos nos portais de notícias que contam o drama. Realmente, uma das grandes tragédias deste País e que marcou para sempre um edifício na capital paulista.

Uma das reportagens conta o lado assombrado daquele local, uma série de acontecimentos envoltos em mistérios. No meio do texto, havia um link para um outro com o título “Conheça 14 lugares conhecidos como mal-assombrados em São Paulo”. Como gosto muito do assunto fui ler esse também. Ele descrevia lugares onde pessoas diziam ver fantasmas, ouvir gritos, ter sentimentos estranhos entre outras coisas espirituais.

Um dos locais descritos era a Capela da Santa Cruz dos Enforcados e, acho que aqui, começou realmente o fato que se sucederia no dia seguinte. Como algumas pessoas já sabem, eu fotografo igreja, templos, cemitérios e locais ligados à vida, à crença e à morte. O tema me fascina e sempre rendem fotos espetaculares. A Capela da Santa Cruz dos Enforcados fica na Praça da Liberdade, local que eu iria conhecer sábado, nunca havia ido até lá.

Por um descuido meu não observei no texto que a tal capela ficava na Liberdade. Esse foi o primeiro ponto do que costumo chamar de sorte na fotografia. Chegando lá, logo de cara vi a capela, mas não me chamou muito a atenção. Ela não me parecia assombrada e muito menos eu sabia que era sobre ela que tinha lido no dia anterior, para mim parecia apenas uma igrejinha bonitinha. A sorte começou a mudar quando em certo momento, andando pelas ruas do bairro, me deparo com outra capela, menor, escondida no final de um beco e, um tanto quanto assustadora.

Fomos almoçar e fiquei pensando se essa seria a capela ao qual li. Resolvi ir até lá. Fiz de imediato algumas fotos do exterior, do beco, do sino, da cruz, do portão. Parti então para conhecer (e fotografar) seu interior. A capela é simples, um tanto quanto sombria. No seu interior, altares simples com várias imagens e apenas três pessoas rezando. Preparei-me então para fotografar quando uma sensação me disse não, agora não. Fiquei encanado com aquilo, já que estou acostumado com igrejas.

Parei, baixei a câmera, observei bem em volta, vi se não estava atrapalhando a oração de ninguém que ali estava, poderia ser a origem dessa sensação. Nada, as pessoas nem me viam. Parti então para uma segunda tentativa. Foi só preparar a câmera e novamente me veio a mesma coisa, essa não é o momento. Saí, fui fazer uma foto da sala das velas. Em seguida deixei o local e contei o ocorrido para as pessoas que me acompanhavam. Essa em questão era a Capela dos Aflitos, uma capela erguida quando naquela região estava  o Cemitério dos Aflitos. Nele eram enterrados indigentes, presos, pobres, não católicos e os enforcados no enforcadouro que existia onde é hoje a Praça da Liberdade.

Conta a história que um soldado chamado Francisco das Chagas (o Chaguinha) foi enforcado nessa praça. Sentenciado à morte depois de um levante contra seu comando que não pagava o soldo devido, nas duas primeiras tentativas (ou três, dependendo de quem conta), a corda arrebentou e ele não morreu. O povo que assistia, entendendo como um sinal divino, gritava por sua liberdade. Não satisfeito, o carrasco tentou mais uma vez, e aí sim, consumou o castigo mortal.

Nesse exato momento da história que estou narrando é feita a ligação entre as duas capelas. A Capela da Santa Cruz dos Enforcados foi erguida em homenagem a Chaguinha e foi na Capela dos Aflitos que ele ficou preso e passou seus últimos minutos até ser levado à forca. E sabe o que realmente impressionou? Descobrir pesquisando mais tarde, que a sala das velas a qual fotografei foi a cela onde Chaguinha passou sua última noite. Por respeito a algo que eu não sei descrever, não fotografei o interior da capela dessa vez, mas eu ainda volto lá. Essa foi a vez que eu não fotografei uma igreja.